CONTEXTUALIZANDO A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


A violência contra a mulher vem ocupando cada vez mais a atenção dos pesquisadores da sociedade brasileira contemporânea. Segundo a pesquisa “A Mulher Brasileira no espaço Público e Privado” (Fundação Perseu Abramo, 2002), cerca de uma em cada cinco brasileiras (19%) declara espontaneamente ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem, 16% relatam casos de violência física, 2% citam alguma violência psíquica e 1% lembra do assédio sexual. Quando estimuladas pela citação de diferentes formas de agressão, o índice de violência sexista ultrapassa o dobro, alcançando a marca de 43%.
Um terço das mulheres ouvidas (33%) admite já ter sido vítima; 27% sofreram violências psíquicas e 11% afirmam já ter sofrido assédio sexual. Dentre as formas de violência mais comuns, destacam-se a agressão física mais branda, sob a forma de tapas e empurrões, sofrida por 20% das mulheres; a violência psíquica de xingamentos, com ofensa à conduta moral da mulher, vivida por 18%, e a ameaça através de coisas quebradas, roupas rasgadas, objetos atirados e outras formas indiretas de agressão, vivida por 15%. 12% declaram ter sofrido a ameaça de espancamento a si próprias e aos filhos e também 12% já vivenciou a violência psíquica do desrespeito e desqualificação constantes ao seu trabalho, dentro ou fora de casa.

A juventude da periferia, em sua grande maioria negra, tem sido à parte da população que mais diretamente sofre as conseqüências desta violência. Desinformação, refluxo conjuntural na atuação e falta de representatividade das organizações ligadas aos jovens e outras que tinham participação direta na comunidade - como as associações de moradores - aliados à baixa auto-estima e a desagregação da instituição familiar, são alguns fatores que podem explicar esta maior vulnerabilidade dos jovens à situação de violência.

As mulheres dessa população enfrentam dificuldades para acessar as condições mínimas que garantam seus direitos. As políticas públicas de juventude focam em geral o universo masculino – e urbano. É preciso, portanto, garantir que a parcela feminina seja considerada com suas especificidades nos desenhos das políticas universais. As mulheres jovens, sobretudo as negras, encontram grande dificuldade para inserção no mundo do trabalho; estão bastante vulneráveis a situações de violência doméstica; têm sua saúde sexual e reprodutiva manipuladas segundo uma lógica de controle e têm suas imagens amplamente divulgadas pela mídia como objeto e mercadoria.

E é da periferia e a partir da juventude que tem surgido uma alternativa a este quadro. O Hip Hop é um fenômeno cultural surgido nas últimas décadas e de grande importância social. Ora classificado como um movimento social, ora como uma cultura de rua, o fato é que o Hip Hop tem mobilizado milhares de jovens nas periferias das grandes cidades. Os temas que ganham cores nas paredes ou a letra contundente dos MC’s (Mestre de Cerimônia - o que canta o RAP) são variados: identidade racial e cultural, possibilidade de inserção social, alternativa à marginalização e à violência.

Entretanto, a questão específica da violência contra a mulher ainda é muito pouco discutida nesse universo do Hip Hop, seja pela cultura machista no qual esses/as jovens são criados/as, seja pela banalização com que a violência é tratada, seja pela falta de percepção de que este é um problema social, e não pessoal a ser resolvido entre quatro paredes. As meninas do Hip Hop, assim como suas mães, irmãs e meninas de outras culturas e outras “tribos” sofrem esse tipo de violência no seu cotidiano, sem se dar muitas vezes conta de que isso não é “natural”.

O HIP HOP, especialmente nas grandes cidades, desempenha papel fundamental enquanto formador de opinião e por isso pode – e deve – ser aliado na divulgação de informações que contribuem para o exercício da cidadania. E entre os temas que se inserem na discussão da cidadania e dos direitos humanos, está a questão de Gênero, que vai além do sexismo, podendo o HIP HOP colaborar na construção de novos papéis sociais femininos e masculinos.

As mulheres precisam conhecer e dominar as temáticas de gênero para que possam estabelecer a comunicação, dar visibilidade e tornar políticas questões que as afetam, como a violência contra a mulher, entre outras.